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Sua igreja pode não estar enxergando algumas pessoas
Às vezes, a maior forma de cegueira é não perceber quem está bem diante de nós.
Por Administrador
Publicado em 02/01/2026 19:10
Religião
Ajudar uma pessoa cega vai muito além de ações cotidianas. (Foto: Shutterstock)

Por Juliana Santos

Essa é uma realidade que aprendi ao longo da minha própria experiência como pessoa com deficiência visual. Os meus olhos seguem mais o fluxo dos meus pensamentos do que o mundo ao meu redor. Já ouvi comentários bem-intencionados, mas dolorosos, como: “Você nem parece cega, é tão bonita!” ou “Seus olhos são
perfeitos, você parece normal!”.

Essas frases revelam algo maior do que curiosidade: mostram barreiras atitudinais que surgem nas palavras, nos gestos e até no silêncio da omissão. Barreiras que fazem com que a pessoa com deficiência tenha que justificar sua existência para se encaixar no conforto visual do outro.

A deficiência visual não tem um único rosto. Existem pessoas que enxergam apenas borrões, outras que têm visão tubular, algumas com perda visual central, outras cuja acuidade visual muda conforme a iluminação do ambiente — e há também a cegueira total. Já quem usa óculos e tem correção completa da visão não se
enquadra em deficiência visual. Compreender essa diversidade é fundamental para qualquer igreja que deseja acolher de verdade.

É por isso que o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP), é mais que um departamento: é um movimento de acolhimento, discipulado e convivência, onde se enxerga potencial, fé e possibilidades — não limitações.

E tudo começa com passos simples:

  • Ouvir as pessoas. Cada igreja precisa conhecer as pessoas cegas e com baixa visão que já fazem parte da comunidade — e as que vivem nos arredores. Não é uma pesquisa sobre números, mas sobre histórias reais.
  • Capacitar voluntários. Pessoas acolhedoras, dispostas a aprender técnicas básicas para atuar como guias, audiodescritores e ledores. Não exige habilidades extraordinárias, apenas sensibilidade: oferecer o braço, descrever o ambiente, garantindo autonomia, conforto e segurança.
  • Compromisso institucional. O Ministério de Cegos e Baixa Visão deve ser parte do Ministério Adventista das Possibilidades, votado na comissão da igreja e com uma liderança que trabalhe com uma equipe para: auxiliar no transporte, na leitura, na organização das atividades e na construção de experiências acessíveis. Essas ações não são favores, são a prática de um cristianismo real.

No centro desse ministério está o Pequeno Grupo Visão Real (PGVR) — um espaço de estudo bíblico, louvor, amizade e pertencimento. Um ambiente onde todos participam, todos são ouvidos e onde a igreja aprende a enxergar além do óbvio, tornando-se mais parecida com Cristo.

Esse ministério também disponibiliza literatura da igreja e estudos bíblicos em formatos digital, áudio e braile. Esses recursos fortalecem a comunhão dos membros.

Aqui estão algumas perguntas para a sua reflexão:

  • Quando você encontra uma pessoa com deficiência visual, fala com ela ou com quem a está acompanhando?
  • Pega no braço da pessoa para guiá-la antes de perguntar se é o que ela precisa?
  • Presume incapacidade antes de conhecer a pessoa?


Acolher é rever hábitos, falas e atitudes. É substituir presunção por escuta. É caminhar com as pessoas — não por elas, nem à frente delas.
Se a sua igreja ainda não tem o Ministério Adventista das Possibilidades, talvez a mudança comece em você. Uma conversa, um pequeno grupo, alguns voluntários… e o impacto pode ser maior do que você imagina.

Jesus tem pressa de voltar e não quer deixar ninguém para trás. Que juntos possamos construir uma igreja que realmente enxerga.


Juliana Santos é especialista em Educação Especial, com ênfase em Deficiência Visual, Surdez e Surdocegueira. Graduada em Música, Pedagogia e Jornalismo. Atualmente atua como conselheira do Ministério Adventista de Cegos e Baixa Visão, uma das áreas de abrangência do MAP.

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